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O colonialismo não criou só a escravatura. Também mudou a geologia da Terra

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Lincoln Financial Foundation Collection / Wikimedia

“História da Escravatura”, William Blake (1860)

Além da criação da escravatura e de um triângulo comercial entre continentes, o Colonialismo foi também responsável por mudar a própria Geologia da Terra, defendem dois investigadores britânicos.

Trouxe muita riqueza a países como Portugal, Espanha e Grã-Bretanha, desempenhou um forte papel na escravatura de mais de dez milhões de africanos e criou os primeiros mercados globais de algodão, tabaco e açúcar. Mas, agora, o Colonialismo também é ‘acusado’ de outra coisa: mudar a própria Geologia da Terra.

De acordo com o The Guardian, esta é a visão de dois cientistas britânicos que acreditam que o impacto do Colonialismo foi tão profundo que pode ser detetado no ar e nas rochas da Terra. Uma ideia sustentada no livro “O Planeta Humano: Como Criámos o Antropoceno”, escrito por Simon Lewis e Mark Maslin e publicado na semana passada.

Os dois investigadores da University College London descrevem a colonização do continente americano e de outros territórios como uma “experiência evolutiva de base planetária baseada no Homem”, que começou no século XVI e que “vai continuar indefinidamente”.

A maioria dos cientistas aceita que, ainda hoje, a Humanidade está a influenciar a vida do planeta, traduzindo-se em mudanças como os movimentos das placas tectónicas, a acidificação dos oceanos e a exterminação de muitas espécies. As consequências de todas estas ações vão continuar a ser detetáveis durante milhões de anos. Como recorda o jornal britânico, esta nova época é chamada de Antropoceno.

Porém, os cientistas discordam sobre a data em que este período começou. Alguns dizem que se iniciou com as explosões das primeiras bombas atómicas, eventos que provocaram uma revolução tecnológica e que deixaram registos radioativos nas rochas da Terra.

Outros consideram que é ainda mais recente e apontam o plástico como o principal culpado que, misturado com as rochas, está a formar uma camada geológica distinta. De qualquer forma, as origens do Antropoceno são vistas como relativamente recentes.

É aí que Lewis e Maslin discordam da comunidade científica. A dupla de investigadores acredita que tudo começou durante a Colonização desencadeada no século XVI.

Antropoceno começou durante a Colonização?

“A chegada dos europeus, em particular dos britânicos e espanhóis, teve um impacto profundo na América Central e do Sul”, afirma Maslin ao Observer. “Levaram consigo germes como a varíola, sarampo, gripe, febre tifóide e muitas outras doenças que provocaram a morte de mais de 50 milhões de americanos, que não tinham exposição prévia a esses patógenos, em poucas décadas. O povo americano entrou em colapso e a agricultura de subsistência foi destruída”, explica.

“Podemos detetar isso nos núcleos de gelo da Antártida. Fornecem uma história da atmosfera por milhares de anos e mostram que os níveis de dióxido de carbono atingiram um mínimo distinto por volta de 1610 porque as florestas, que são muito melhores do que as culturas agrícolas para absorver o dióxido de carbono, cobriam agora vastas áreas da paisagem americana – graças à erradicação das pessoas que já tinham cultivado lá. Esse efeito persistiu durante décadas até a população na América ter sido outra vez restaurada”.

Esta é a marca – o ano de 1610 – que realmente define o Antropoceno, consideram os investigadores. Além disso, os dois acreditam que estes movimentos colonialistas não afetaram só os povos mas também os animais e as plantas.

Durante as décadas em que exploraram o continente americano, os europeus alimentavam-se das suas batatas e tomates, enquanto que na China e na Índia se consumiam as suas especiarias. Estas importações também tiveram um profundo impacto. “Na China, por exemplo, a chegada do milho permitiu a criação de terras mais secas, gerando novas ondas de desflorestação e um grande aumento populacional”, dizem.

A colonização da América resultou assim num triângulo comercial: os produtos europeus foram vendidos para África em troca de escravos, que foram transportados para a América para cultivar algodão e tabaco para a Europa. Pela primeira vez, o mundo estava ligado a um único sistema económico global.

A globalização tinha começado e o seu impacto no planeta tem sido vasto desde então. Um dos resultados foi a homogeneização da vida na Terra. Ratos e outras pragas transportados nos navios invadiram os habitats de espécies isoladas, ao mesmo tempo que mais terras foram sendo destinadas à agricultura.

“Um bom exemplo disso é a minhoca”, declara Maslin. “Nos EUA, a maioria das minhocas que encontramos são, na verdade, de origem europeia. São melhores a competir por nutrientes, então tomaram conta do solo na América do Norte desde que os europeus as trouxeram através do Atlântico no século XVI. Esta é uma coisa que ninguém consegue reverter. Vão ficar lá para sempre”, explica.

“O Antropoceno começou com a difusão do colonialismo e da escravatura. É uma história de como as pessoas tratam o meio ambiente e de como se tratam entre si”.

“Tornámos-nos uma nova força da natureza, ditando o que vive e o que é extinto. Embora, num aspeto importante, somos diferentes de qualquer outra força da natureza: o nosso poder, ao contrário das placas tectónicas ou erupções vulcânicas, é reflexivo, ou seja, pode ser usado, modificado ou mesmo retirado”, concluem os dois autores.

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