Início Ciência Exposição crónica à poluição pode reduzir níveis de inteligência

Exposição crónica à poluição pode reduzir níveis de inteligência

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Leo Fung / Flickr

A exposição crónica à poluição atmosférica está associada a danos na inteligência, revela um estudo conduzido por investigadores da China e dos EUA.

A investigação identificou que a relação entre poluição e performance cognitiva aumenta com a idade e afeta especialmente homens com menor nível de educação.

Os cientistas usaram dados de 20 mil pessoas que, entre 2010 e 2014, fizeram testes de linguagem e de matemática como parte da CFPS (China Family Panel Studies), uma pesquisa nacional conduzida todos os anos e financiada pelo Governo chinês.

“A pesquisa (CFPS) também fornece informações exatas sobre as localizações geográficas e as datas das entrevistas, o que nos permite comparar as pontuações dos testes com os dados da qualidade do ar local com mais precisão”, explicam os autores do estudo, publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

O estudo comparou os resultados dos testes de performance cognitiva com medições de dióxido de enxofre, dióxido de nitrogénio e de partículas menores do que dez micrómetros de diâmetro dos locais onde os participantes viviam quando fizeram as provas.

Não está ainda claro o quanto cada um destes três poluentes seria culpado pela perda da  performance cognitiva e, apesar de o estudo ligar a poluição às notas mais baixas, a investigação não prova a relação de causa e efeito.

Não é só na China

Os investigadores avaliam, contudo, que os resultados não se restringem à China e acreditam que as conclusões podem ser aplicadas a nível global, uma vez que 80% da população urbana mundial respira níveis considerados inseguros de poluição do ar.

Descrita como uma ameaça invisível que é capaz de matar, a poluição atmosférica causa cerca de sete milhões de mortes prematuras por ano em todo o mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).

“Podemos mostrar sinais de que o efeito da poluição do ar nos testes verbais torna-se mais evidente à medida que as pessoas envelhecem, especialmente nos homens e naqueles com menos estudos”, diz o estudo.

Acredita-se que muitos poluentes afetem diretamente a química do cérebro de diversas formas – certas partículas podem, por exemplo, transportar toxinas através de pequenas passagens e entrar diretamente nos órgãos. Outros também podem ter um impacto a nível psicológico, aumentando o risco de depressão ou doenças degenerativas como o Alzheimer e outras formas de demência, indica o estudo.

Estar exposto a altos níveis de poluição atmosférica pode estar ligado “à redução do nível de educação por um ano… o que é demasiado”, declara um dos autores do estudo, Xi Chen, da Escola de Saúde Pública de Yale, ao jornal britânico The Guardian.

Estudos anteriores já tinham identificado que a poluição do ar tem um impacto negativo nas habilidades cognitivas de estudantes.

Trabalho ao ar livre

Os investigadores analisaram os resultados das provas de homens e mulheres, com mais de dez anos de idade, que responderam a 24 questões de matemática e 34 de linguagem.

O grupo acredita que uma das explicações para homens com menos estudos serem os mais afetados pela exposição crónica da poluição é o facto de, na China, pertencerem à maioria dos trabalhadores que fazem as suas tarefas ao ar livre.

“As nossas descobertas sobre o efeito prejudicial da poluição na cognição”, conclui o estudo, “particularmente no envelhecimento cerebral, implicam que o efeito indireto sobre o bem-estar social pode ser muito maior do que se pensava anteriormente”.

Segundo Chen, os efeitos nos idosos, que no estudo são os que têm idade superior a 55 anos, podem ser muito difíceis de compensar, dada a exposição cumulativa a longo prazo.

“Isto é muito preocupante, pois todos sabemos que as pessoas muitas vezes têm de tomar decisões financeiras importantes nessa fase da vida como, por exemplo, quando nos devemos reformar, qual o seguro de saúde que é melhor para nós”, acrescenta.

O estudo sugere que, embora os resultados sejam específicos para o país asiático, pode lançar uma nova luz sobre outros países em desenvolvimento com poluição do ar severa.

Os autores dizem que 98% das cidades com mais de 100 mil pessoas em países com baixo a médio rendimento não atendem às diretrizes de qualidade do ar da OMS.

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