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Reconstrução 3D mostra rosto de Eva de Naharon, a mulher mais antiga das Américas

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(dr) Cícero Moraes

Eva de Naharon, a mulher mais antiga das Américas

Eva de Naharon é a mulher mais antiga das Américas ou, pelo menos, o mais antigo fóssil humano encontrado no continente. Dezassete anos depois da descoberta dos seus restos mortais, o rosto real de Eva de Naharon foi finalmente apresentado.

Ciência

  • 18 Agosto, 2018 Reconstrução 3D mostra rosto de Eva de Naharon, a mulher mais antiga das Américas

Octavio del Río, investigador do Instituto Nacional de Antropologia e História do México e líder da equipa de cientistas que descobriu as ossadas em 2001, revela que este trabalho coincide com as características físicas dos habitantes do sul da Ásia, na medida em que bate certo com estudos antropológicos e de ADN realizados em fósseis humanos encontrados na região.

A reconstituição em 3D foi realizada ao longo das últimas duas semanas pelo designer brasileiro Cícero Moraes, especialista em reconstituir digitalmente rostos realistas de personalidades históricas e religiosas. De acordo com a BBC, Moraes utiliza técnicas avançadas de reconstrução facial forense.

A descoberta das ossadas de Eva de Naharon aconteceu em 2001, quando Del Río mergulhava numa expedição do Instituto Nacional de Arqueologia e História do México nas proximidades da cidade de Tulum, no Estado mexicano de Quintana Roo.

A equipa estava a explorar cenotes, cavidades naturais comuns na Península de Yucatán e pontos muito utilizados para rituais e sepultamentos pela civilização maia. Os trabalhos prolongaram-se até 2002, com a recolha de resquícios arqueológicos e paleontológicos.

O esqueleto desta mulher, batizada de “Eva de Naharon”, recebeu este nome por ter sido encontrada no cenote de Naharon. As ossadas estavam a 22,6 metros de profundidade e muito bem conservadas, contendo cerca de 80% da estrutura original.

Depois de inúmeras análises, os cientistas descobriram que Eva media 1,41 metros de altura e tinha entre 20 a 25 anos quando morreu. Entre 2002 e 2008, três laboratórios diferentes fizeram testes de datação e a idade surpreendeu os cientistas: com 13,6 mil anos, Eva de Naharon é o mais antigo fóssil humano encontrado nas Américas.

Isto indica, de certa forma, que houve outras migrações para o povoamento da América, antes do Estreito de Bering se ter convertido numa “ponte” devido à Era do Gelo.

Proposta pela primeira vez em 1590 e validada com escavações arqueológicas realizadas na primeira metade do século 20, a teoria mais aceite para o povoamento da América afirmava que, na última Era Glacial, que terminou há cerca 13 mil anos, o nível dos oceanos recuou, pelo menos, 120 metros.

Esse recuo abriu conexões terrestres em diversos pontos do planeta, inclusivamente entre o atual extremo leste da Rússia e o atual Alasca, no chamado Estreito de Bering – um segmento de mar naturalmente raso. Ora, se os primeiros habitantes da América chegaram apenas nessa época, seria impossível que Eva estivesse no México na mesma altura.

A datação de Eva veio, portanto, reforçar teorias como a que foi proposta pelo etnólogo francês Paul Rivet, que não descartava a tradicional ideia do Estreito de Bering, mas supunha que outras migrações teriam ocorrido em séculos anteriores, por exemplo, em embarcações que saltaram de ilha em ilha.

Quem era Eva de Naharon?

Pesquisas realizadas após a descoberta adiantam que Eva viveu na região de Yucatán e era caçadora. No entanto, não se sabe se a mulher foi levada para o labirinto de cavernas – que, naquela altura, era seco – antes ou depois de morta.

Estudos mostram que os cenotes tornaram-se estruturas submersas após a Era do Gelo, quando o nível dos oceanos aumentou.

E Del Río comprova. O cientista lembra que encontrar Eva exigiu um ano e meio de mergulhos. “Foi uma maratona. Todas as referências levaram-nos a lugares escondidos dentro da caverna. Foram muitas horas a mergulhar”, conta.

“Quando finalmente encontramos o lugar e tive a sorte, juntamente com meu colega Eugenio Acevez, de me deparar com os restos do esqueleto de Naharon, vimos que certamente era um esqueleto humano”, afirma. “Mas não fazíamos a menor ideia de que se tratava do mais antigo fóssil humano já encontrado no continente.”

Atualmente, o fóssil está sob a guarda do Instituto Nacional de Antropologia e História do México, com acesso restrito a investigadores.

Reconstrução facial

(dr) Cícero Moraes

Del Río conta que procurou os trabalhos de Cícero Moraes depois dever outras reconstruções faciais realizadas pelo brasileiro. “Ele é reconhecido em todo o mundo pelo seu trabalho de recriação facial virtual a partir de modelos tridimensionais de crânios de importantes figuras históricas”, comenta.

Não está nos planos do instituto fazer uma reprodução física da Eva de Naharon. “Mas parte dos objetivos é criar, dentro de um curto prazo, um museu virtual com modelos tridimensionais de restos arqueológicos e paleontológicos encontrados. Será um meio alternativo para conhecimento e estudo, que poderá ser acessado remotamente por interessados”, adianta o investigador.

“Gostei bastante do resultado final”, avalia Moraes. “Ficou diferente do que imaginava, mas os grandes mestres da reconstrução facial dizem que não podemos esperar o resultado mal observamos as ossadas. Temos de trabalhar e o resultado vem naturalmente.”

Para o designer, Eva revelou-se uma mulher de “rosto altivo e agradável aos olhos, que nos contempla com tranquilidade”.

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