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O Romantismo e a sua manifestação literária

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O que é o romantismo? Como se expressa a corrente romântica na literatura universal? Quando falamos em literatura romântica, temos por hábito de senso comum, de forma consciente ou inconsciente, de associar imediatamente a um poeta que escreve sobre assuntos lamechas enquanto se embebeda com uma garrafa de absinto e chora por ter sido traído e abandonado por sua esposa. Por muito que possa soar lógico na mente de um simples leitor ou estudante de literatura, essa ideia perpetua-se de tal maneira que, consequentemente, essa imagem se estende a autores ligados a outras estéticas literárias ou até outras artes, imagem essa que, enquanto estudante de literatura, pretendo descompor neste artigo.
Como e em que contexto surge o romantismo? Entre o final do século XVIII e o início do século XIX, a Europa servia de palco para as lutas liberais contra o Antigo Regime e as suas convenções e de guerras intermináveis em nome do poder do povo
sobre a opressão. Entretanto, em países como a Inglaterra, França, Alemanha e, mais tarde, em Portugal e na Espanha, surge um movimento artístico chamado de Romantismo como resposta ao estilo barroco, um estilo bastante desgastado e desacreditado perante as audiências, sobretudo na área literária.
Os artistas ligados a esta corrente, designados de românticos, expressavam um conjunto de ideias e características nos retratos que faziam nas suas obras que se tornaram próprios deste género. Primeira e principal característica é o facto de surgir como um movimento de transgressão de todas as estéticas anteriores, em que o
escritor, perante um mundo degradante, tenta evadir da realidade e de todas as prisões que servem de entrave à sua arte e à sua felicidade, muitas vezes recorrendo ao alcoolismo, imagem de marca do romantismo, como ajuda à sua fuga.
William Wordsworth

Outra característica é a alusão textual a memórias da infância e à inocência perdida. William Wordsworth, um dos expoentes do romantismo inglês, desenvolve nas suas obras sobre a relação entre a criança e a natureza na infância e a forma como a criança perde a habilidade de apreciar o belo e o divino na natureza à medida que vai crescendo e perdendo toda aquela inocência. No que toca à natureza, esta também constitui uma característica do romantismo, sobretudo no romantismo inglês, manifestando-se em obras como “A Balada do Velho Marinheiro”, de Samuel Taylor Coleridge, em que o sujeito, incorporado no corpo de um velho marinheiro, conta a

história de um naufrágio da sua embarcação e da morte da sua tripulação, mostrando, através da distinção entre um mundo físico e um mundo espiritual, a forma como a natureza interage com o homem e o capacidade que a mesma tem de se tornar cruel para com o homem quando este a atinge e fere.
Ao longo deste período, o romantismo desenvolve também a adoração por figuras rebeldes e transgressoras das mitologias ocidentais, tais como Satanás, Prometeu, etc, transformando-se essa adoração no uso das mesmas em cânones da literatura romântica e até criando protagonistas com personalidades inspiradas na rebeldia dessas mesmas figuras. Como por exemplo, em “Paraíso Perdido”, John
Milton aborda a profunda rivalidade entre Deus e Lúcifer, apresentando Lúcifer como um ser carismático, contudo traiçoeiro, que depois de fracassada a tentativa de retirar Deus do poder, junta todos os seus companheiros e tenta sem qualquer escrúpulo desvirtuar o homem e desviá-lo do caminho virtuoso traçado por Deus.
Em “Don Juan Tenorio”, a partir do mito original criado por Tirso de Molina em “O Burlador de Sevilha”, Zorrilla apresenta um Don Juan também carismático, sedutor e mentiroso, tal como Satanás, que engana as mulheres “pícaras” com promessas falsas de casamento e ascensão social em prol do seu próprio prazer sexual, abandonando-as
na ruína sempre que se aborrece e não precisa mais delas. Porém, na conceção de Zorrilla, o protagonista, por amor, acaba por se redimir dos pecados perante a morte, entrando aqui o amor, tema crucial no esquema da literatura romântica. O conceito de Don Juan também se manifesta na música, sobretudo na ópera Don Giovanni, de Mozart, cujo protagonista (Don Giovanni) age da mesma forma como descrito no mito original donjuanesco.
Don Giovanni, protagonista da ópera de Mozart, inspirada em Don Juan

Outro exemplo literário pode ser visto na obra “Tess of d’Ubervilles”, de Thomas Hardy, onde Tess, a protagonista, é enganada por seu marido Alec, um sedutor e mentiroso compulsivo, tal como Don Juan, e que torna a vida de Tess num inferno devido ao seus vícios e dívidas. Nesta obra, Alec pode ser comparado a Satanás, não

enquanto figura bíblica mas sim como símbolo de uma força da natureza capaz de desviar o homem do caminho da virtude e fazê-lo entrar num caminho errático de perdição.
Como disse acima, o amor torna-se crucial nas obras românticas, apresentando sempre um protagonista confrontado com um amor impossível, levando a comportamentos erráticos e a tentar transgredir as normas impostas, sendo que no fim o destino, sob a forma de “nemesis”, pune tragicamente o protagonista com a morte. Como por exemplo, temos a obra de Lord Byron, que apresenta o conceito de “herói byrónico” (em inglês ”byronic hero”), um protagonista que possui grandes dotes e capacidades e objetivos nobres, mas que é perseguido por um pecado secreto cometido no passado (“a secret past sin”), geralmente relacionado com incesto, que o destrói gradativamente e o leva à loucura e à morte, por influência da némesis.
A morte, fortemente associada ao obscuro, é também um tema usado nos enredos, vista como um fenómeno da natureza. Nos enredos, juntamente com a morte, eram adicionados cenários tristes, como florestas, bosques, ruínas (associada à mitologia) e, sobretudo, cemitérios, lugar onde acontecia sempre fenómenos mágicos e macabros. Este cenário está muito presente no imaginário gótico, conhecido como “romantismo sombrio”. Em “Don Juan Tenorio”, o protagonista é atraído pelo espírito da sua amada para um cemitério, onde se arrepende do mal que comete, garantindo a sua salvação, e acaba por morrer naquele mesmo local.
O Romantismo, perante as agitações liberais na Europa naquela época, também assume um cunho político bastante forte. Autores como Byron, Stendhal e Victor Hugo retratavam nas suas obras as agitações e alguns lutaram em guerras e golpes liberais pela independência de nações que se encontravam sob o jugo opressor. Como por exemplo, Byron lutou em várias guerras, como a guerra contra o Império Otomano(atual Turquia) pela independência da Grécia, tendo morrido em combate no célebre Cerco de Missolonghi. Pintores como Delacroix criaram quadros que retratavam esta época de sobressalto político, assim como em outras áreas artísticas também existem obras desta época. Devido ao seu cunho político, muitos artistas românticos foram perseguidos, presos e exilados durante as lutas liberais contra os regimes autocratas.
Lord Byron

Em termos estilísticos, os autores recorrem à poesia, sobretudo poesia narrativa, e ao romance, empregando estilo declamatório e recorrendo a uma linguagem retórica com grande abundância de recursos estilísticos.

Concluindo, o estilo romântico é um estilo frutífero, com muitas características que, através de um padrão, pode desenvolver suas manifestações de várias formas possíveis. Também é uma corrente que se eternizou na história da arte e da literatura, sendo que seus autores se tornaram cânones que ainda hoje estão vívidos na cultura
literária atual. Contudo, deixaram marcas que generalizaram a forma como se olha para o artista, sobretudo o poeta, sendo essas visões incorretas e cabe ao leitor pesquisar e entrar mais a fundo na literatura para ficar a saber melhor desta arte, mas creio que este assunto será para um próximo artigo.

Bruno Teixeira


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