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Os japoneses estão a um passo de fazer os bebés (literalmente) em laboratório

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Uma equipa de investigação japonesa conseguiu produzir em laboratório as células que originam espermatozóides e óvulos a partir do sangue de uma mulher. Apesar de serem demasiado imaturas para dar origem a bebés, abre-se uma porta determinante para um novo mundo em que o sexo poderá ser prescindível no processo de reprodução.

Depois do caso do cientista chinês He Jiankui que chocou o mundo com o anúncio de que criou os primeiros bebés geneticamente modificados, uma investigação japonesa abre caminho para um novo mundo em que a genética poderá substituir o sexo no processo de reprodução humana.

Uma equipa de cientistas liderada pelo biólogo Mitinori Saitou, do Departamento de Anatomia e Biologia Celular da Escola de Medicina da Universidade de Quioto, no Japão, conseguiu criar células germinais primordiais humanas (as que antecedem as células germinais que originam o espermatozóide e o óvulo) a partir de células sanguíneas de uma mulher.

As células extraídas do sangue foram transformadas em células estaminais pluripotentes que podem transformar-se, por sua vez, em qualquer tipo de célula humana, como explicam os autores da pesquisa num artigo publicado na revista Science.

Essas células estaminais foram depois inseridas em mini-ovários “artificiais” criados em laboratório, usando células embrionárias de ratos, dando então origem a células germinais primordiais humanas.

Para já, não se conseguiu ainda desenvolver células suficientemente maturas para serem fertilizadas. Mas em 2012, em ensaios com ratos efectuados por Mitinori Saitou, já foi possível fazê-lo, obtendo células reprodutivas totalmente amadurecidas que originaram pequenos ratinhos.

A técnica conhecida como gametogénese in vitro consiste em criar em laboratório o processo de reprodução sem a intervenção de óvulos ou de esperma, obtendo-se os gâmetas masculino e feminino a partir da pele ou do sangue.

Este passo dado pelos investigadores japoneses é determinante no trilho para tornar prescindível a intervenção dos homens, já que ainda será necessário o útero da mulher para a implantação do embrião. Mas futuramente, até úteros artificiais podem vir a ser desenvolvidos.

“Se conseguirmos criar óvulos humanos e esperma a partir de células da pele, abre-se um enorme número de possibilidades para mudar como os humanos se reproduzem“, aponta o bioeticista Henry T. Greely, professor de Direito da Universidade de Stanford, nos EUA, e autor do livro “The End of Sex and the Future of Reproduction” [“O fim do sexo e o futuro da Reprodução”], em declarações à Rádio NPR.

George Clooney pode ter vários filhos sem querer

Há muitas vantagens que podem surgir fruto dos avanços nesta área, nomeadamente tornando mais baratos os processos de fecundação in vitro, já que deixaria de ser preciso crio-preservar óvulos ou recorrer a doadores de esperma.

As pessoas inférteis têm aqui uma nova esperança, tal como os casais do mesmo sexo que querem ter filhos com o seu próprio ADN. O desenvolvimento da técnica até pode inverter o relógio biológico e possibilitar a mulheres com 50 ou 60 anos serem mães com o seu próprio material genético.

Mas também há problemas éticos e riscos inerentes a este processo, já que “há muitas possibilidades estranhas que podem emergir”, como alerta o bioeticista Robert Green na NPR.

“Uma mulher pode querer ter um filho do George Clooney. E o seu cabeleireiro poderia começar a vender os seus folículos de cabelo online. Por isso, subitamente, poderíamos ter muitos progenitores do George Clooney sem o seu consentimento”, destaca Robert Green.

Henry T. Greely nota, por outro lado, que podem surgir dilemas morais relacionados com o desejo de criar bebés à medida, frisando que há “muitas implicações”, nomeadamente a possibilidade de “pais e, potencialmente, governos” poderem vir a escolher “que embriões prosseguem para se tornarem bebés”, em função das suas características analisadas em “testes genéticos”.

O tema é controverso e por isso as investigações nesta área são alvo de controlo apertado. Em países como Portugal, EUA, Reino Unido e China, a edição genética de embriões carece de aprovação prévia de diversos comités.

Por cá, é o Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida (CNPMA) que analisa e autoriza este tipo de investigações. Em 2016, o CNPMA aprovou o primeiro projecto de investigação com recurso a embriões humanos, no âmbito de um estudo de implantação embrionária durante o tratamento de infertilidade.

O Governo japonês pretende aprovar, no início de 2019, um projecto de lei que permitirá a edição genética de embriões humanos, numa medida que é vista como um incentivo à investigação nesta área.

SV, ZAP //

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