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Crónica: Turismo no Porto e Norte de Portugal, moda ou tendência? Até quando?

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CONTRIBUTOS PARA UMA REFLEXÃO

Esta semana tive oportunidade de percorrer a pé algumas ruas da Mui Nobre e Leal Cidade Invicta, algo que algum tempo não o fazia. Fi-lo numa cidade que me viu nascer, crescer e que me preparou para a vida. Vivo intensamente esta cidade há cinquenta e três anos, trinta e dois dos quais como seu habitante e os restantes como cidadão.

Foram momentos fantásticos que jamais esquecerei, no entanto em 1996 tomei uma decisão que me levou a sair da cidade do Porto, e ir viver para um concelho, onde tinha nascido o meu pai e onde tinha as raízes paternas. Foi uma decisão criticada por uns amigos, elogiada por outros, não me arrependo, aliás nunca me arrependi das decisões que tomei na vida, isto porque qualquer decisão que tomei foi sempre com base em determinados pressupostos, perfeitamente válidos no momento dessa decisão.

Vinte e dois anos volvidos verifico que hoje o PORTO acorda diariamente para uma realidade completamente distinta da que se verificava em 1986, hoje o PORTO não é uma cidade do trabalho, é uma cidade virada para o turismo. Mais ainda, hoje o fenómeno turístico do PORTO conseguiu transformar toda a realidade do Porto e do Norte de Portugal, considerando esse espaço geográfico de Aveiro a Valença, do Porto a Bragança.

Muitos portuenses e nortenhos recordam-se daquela máxima: “O Porto trabalha, Coimbra estuda o que Lisboa há-de gastar”, e este Porto já era a região Norte.

Hoje a região Norte, liderada pelo burgo portuense, ocupa uma posição de destaque no turismo nacional, para isto recordo uma reunião do CONSELHO REGIONAL Norte, em que participei como Presidente da Câmara, mais concretamente na CCDR-N, e em que os 82 municípios que compõem esse Conselho, tomaram uma decisão muito importante, constituir uma entidade única do turismo, aquilo que é hoje, a Entidade de Turismo do Norte de Portugal, e acabarmos com as regiões de turismo que proliferavam como cogumelos por todo o Norte. Aqui deixo só um exemplo, no concelho de Penafiel, num raio de 14 kms havia duas. Com esta decisão iríamos permitir que toda esta vasta região tivesse acesso aos fundos comunitários, pois as regras de Bruxelas iriam limitar esses fundos para o tuirismo a Lisboa, Algarve, Madeira e Açores. A união fez a força e ainda bem que assim foi.

Hoje o PORTO é uma marca mundialmente conhecida e nos cincos continentes. Se há centenas de anos o Vinho do Porto para isso contribuiu, veio depois a navegabilidade do Douro e o turismo fluvial, a projecção internacional do Futebol Clube do Porto e por fim o turismo no Porto (exemplos de fenómenos de atracão turística temos a Livraria LELLO, a Igreja dos Clérigos- este Monumento do Porto bateu o recorde de visitantes em 2017, com cerca de 670 mil entradas, mais 7% do que em 2016, e destes visitantes, 80% foram estrangeiros, e a Ribeira).

Hoje a MARCA PORTO tem uma dimensão que extravasa largamente a city e é toda uma vasta região, não podendo aqui dissociar mais uma vez o papel decisivo da Entidade de Turismo do Norte de Portugal nesta dinâmica.

No entanto este fenómeno turístico no PORTO tem de nos preocupar. Será isto uma moda ou uma tendência ? Tendência para uns “é uma inclinação ou preferência por determinadas coisas ou a fazer determinadas coisas. Por exemplo: O Lionel Messi é um grande jogador apesar da sua tendência em usar o lado esquerdo, o que permite prever os seus movimentos. A tendência inflacionista dos preços preocupa os economistas, A duas horas do fecho dos comícios, não há uma tendência clara que permita vislumbrar um vencedor”.

A história da moda é marcada pelos diferentes tempos e movimentos culturais que influenciaram as sociedades da sua altura. Por exemplo, o Renascimento e o Iluminismo influenciaram a moda, sendo possível identificar tendências diferentes

A palavra moda está presente em várias expressões. A expressão “fora de moda” ou “passar de moda” indica algo que já foi popular, mas no presente momento já não é. Ex: O casaco que ele está vestindo hoje está completamente fora de moda.

Pelo contrário, a expressão “estar na moda”, indica uma pessoa que tem um estilo atual de se vestir, ou descreve um hábito ou costume apreciado por muitas pessoas. Exemplo, agora está na moda conhecer gente na internet em vez de conviver com elas pessoalmente.

O PORTO é mais uma vez e este ano uma tendência, está na moda mais um ano, por enquanto. a questão resume-se a saber a que ritmo é que irá continuar a crescer (e quando é que começa a abrandar). Para que o turismo fosse atraído pelo PORTO foi preciso criar infraestructuras para receber bem os turistas. O fenómeno RYANAIR e as viagens low cost foram fundamentais. O aumento de viajantes, justificou o investimento em hotéis, hostels, alojamento local, restaurantes, área paisagista das cidades, limpeza das cidades e afins.

Portanto, de repente temos um país cheio de bom clima, linda paisagem, pessoas simpáticas, boa comida e vinho, óptimos locais onde ficar a dormir, comer e divertir”. E a palavra passou de boca em boca.

A Bloomberg (empresa de tecnologia e dados para o mercado financeiro e agência de notícias operacional em todo o mundo com sede em Nova York) revela que Portugal é um dos 20 destinos tendência para este ano, e que o PORTO é uma referência a não esquecer. A Bloomberg conta que “a posição de Portugal no panteão do turismo europeu tem disparado do desconhecimento para ‘as bocas do mundo”.

A massificação dos destinos turístico, a construção vs reconstrução urbana desenfreada, as cargas turísticas excessivas, tudo está a ser possível em nome de um desenvolvimento turístico muitíssimo rápido e de uma avidez de consumo.  Como resultado, deparamo-nos hoje com territórios descaracterizados, ruas (quase inteiras)  na cidade desertificadas, o comércio tradicional fechado, efectivamente, hoje começo a ter preocupações o que vai ser deste PORTO se um dia o turismo abrandar ?”

Desde a década de 80, o Porto tem vindo a perder residentes, em grande medida devido à descentralização da função residencial para a sua Área Metropolitana, tendo sofrido uma quebra de cerca de 90 mil indivíduos entre 1981 e 2011.Neste período (1981/2011) as perdas relativas foram mais acentuadas nas freguesias do centro histórico e tradicional, tendo os decréscimos sido superiores a 50% da população residente em Miragaia, Santo Ildefonso, São Nicolau, Sé e Vitória. O Porto foi o concelho do Grande Porto com a maior taxa de variação negativa da população residente, seguido de Espinho (-6%), tendo o concelho da Maia assinalado o maior incremento relativo (12,7%), à semelhança da década anterior.

Em 2011 residiam no concelho do Porto 237.591 indivíduos, o que representou uma perda de 25.540 indivíduos relativamente a 2001”. Recolha efectuada num trabalho elaborado pelo Direcção Municipal de Urbanismo da Câmara Municipal de Porto, em 2014.

O PORTO tem muito do seu comércio tradicional com as portas fechadas. O PORTO tem actualmente um nível de transformação do seu património edificado, para ser transformado em hotéis, hostels e alojamento local como nunca se viu na sua História. O PORTO tem uma população flutuante a crescer por força do fenómeno chamado turismo, mas tem a sua população base, a residente, a diminuir dia a dia.

Eu pessoalmente acredito que, pelo menos, durante mais uma ou duas décadas este cenário do turismo crescente no PORTO se vai manter, e depois desta fase ? Será que vamos ter uma cidade fantasma ?

Para resposta a esta e a muitas outras perguntas acho que devíamos começar a fazer no PORTO um debate profundo, uma reflexão alargada, que não se resumisse a uma sessão, em que estas questões fossem debatidas e preparássemos o PORTO para o futuro, o futuro que será necessariamente dos nossos netos.

Paulo Teixeira 


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